Certa vez, durante uma atividade de supressão vegetal, a coordenação de uma equipe da qual eu fazia parte decidiu que o resgate de uma colônia de abelhas nativas poderia ser realizado por profissionais sem experiência específica na área. O que ninguém esperava era que aquele local já vinha sendo monitorado por organizações ambientais que mantinham um mapeamento detalhado dos ninhos existentes na região.
A falta de conhecimento técnico quase resultou na perda completa da colônia. Um detalhe aparentemente simples, mas extremamente importante, foi ignorado pela equipe responsável pelo primeiro atendimento: a forma correta de acondicionar o ninho após o resgate.
Durante o transporte, o ninho foi posicionado de maneira inadequada dentro da caixa. Como consequência, a colônia enxameou e abandonou o local. Quando cheguei à área, o problema já havia ocorrido e restava apenas tentar minimizar os danos.
Foi necessário realizar uma nova busca ativa para localizar o enxame e identificar o novo local de instalação da colônia. Felizmente, conseguimos encontrá-la, realizar o resgate corretamente e proceder com a realocação adequada. No entanto, aquela diferença entre uma equipe especializada e uma equipe sem treinamento quase resultou em uma multa de aproximadamente R$ 15 milhões para a empresa responsável pela atividade.
Situações como essa estão longe de ser casos isolados. Com a publicação da Resolução CONAMA nº 512/2026, o resgate de abelhas nativas sem ferrão passou a contar com diretrizes nacionais mais claras, reforçando a necessidade de profissionais capacitados para atuar durante as atividades de supressão vegetal.
A nova regulamentação representa um avanço importante para a conservação desses polinizadores e estabelece que o resgate das colônias encontradas em áreas autorizadas para supressão da vegetação nativa deve ser tratado como uma atividade técnica especializada.
Nesse contexto, um dos fatores mais importantes para o sucesso da operação é a correta identificação das espécies presentes na área.
Nem todo ninho é igual
Um dos maiores equívocos cometidos por equipes sem experiência é acreditar que todas as abelhas nativas apresentam os mesmos hábitos ou constroem ninhos semelhantes.
As abelhas nativas sem ferrão apresentam enorme diversidade de espécies, comportamentos e estratégias de nidificação. Algumas utilizam ocos de árvores, outras ocupam cavidades subterrâneas, cupinzeiros, barrancos, paredões rochosos e até estruturas construídas pelo homem.
Essa diversidade faz com que muitos ninhos passem despercebidos durante as atividades de campo quando a equipe não possui treinamento específico para reconhecer os sinais característicos de cada espécie.
Em muitos casos, o ninho sequer é visualmente evidente. O único indicativo pode ser um discreto tubo de entrada, uma movimentação aparentemente insignificante de operárias ou pequenas marcas no substrato utilizado pela colônia.
Sem conhecimento sobre os hábitos de nidificação e comportamento das espécies presentes na região, uma equipe pode percorrer toda uma área acreditando que não existem colônias no local, quando na realidade diversos ninhos permanecem ocultos e vulneráveis aos impactos da supressão.
A busca ativa exige atenção em todas as etapas
A Resolução CONAMA nº 512/2026 determina que a busca ativa ocorra antes do início da supressão vegetal, durante o corte da vegetação, durante o arraste das árvores, no empilhamento da madeira e também durante o transporte do material lenhoso.
Essa exigência demonstra que a localização das colônias não deve ser encarada como uma atividade pontual. Muitas vezes os ninhos só são identificados após a derrubada da árvore ou durante a movimentação do material vegetal.
Em diversas regiões do Brasil, determinadas espécies utilizam cavidades internas que não apresentam qualquer sinal externo facilmente perceptível. Sem uma equipe preparada para reconhecer indícios de ocupação, colônias inteiras podem ser destruídas antes mesmo de serem identificadas.
Por esse motivo, o olhar treinado dos profissionais de campo continua sendo um dos principais fatores para o sucesso do resgate.
Identificar a espécie ajuda a definir a estratégia de resgate
A identificação correta da espécie não possui apenas valor científico. Ela influencia diretamente a forma como a operação será conduzida.
Cada espécie apresenta características próprias relacionadas à arquitetura do ninho, sensibilidade ao manejo, comportamento defensivo, necessidades ambientais e capacidade de adaptação após a transferência.
Uma estratégia eficiente para determinada espécie pode não produzir os mesmos resultados para outra. O desconhecimento dessas diferenças aumenta significativamente os riscos de perda da colônia, mesmo quando o resgate é realizado com boa intenção.
Além disso, a própria Resolução CONAMA nº 512/2026 estabelece que a realocação deve respeitar a área de ocorrência natural das espécies resgatadas, tornando a identificação um fator importante para a definição dos locais de destinação.
Sua equipe está preparada para a nova legislação?
Evite erros que podem comprometer colônias, gerar não conformidades ambientais e colocar operações de supressão vegetal em risco.
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O resgate não termina com a retirada do ninho
Outro erro comum é considerar que o trabalho foi concluído assim que a colônia é removida da área impactada.
Na prática, o sucesso do resgate depende de diversos fatores posteriores, como a sobrevivência da rainha, a manutenção da estrutura interna do ninho, a retomada das atividades de forrageamento e a adaptação da colônia ao novo ambiente.
Uma colônia aparentemente resgatada com sucesso pode apresentar problemas dias ou semanas depois caso não sejam observadas as particularidades da espécie durante todo o processo.
Por isso, o conhecimento técnico continua sendo indispensável mesmo após a transferência e durante o monitoramento das colônias realocadas.
Capacitação técnica é cada vez mais necessária
Com a entrada em vigor da Resolução CONAMA nº 512/2026, cresce a necessidade de profissionais preparados para atuar de forma segura, eficiente e tecnicamente adequada no resgate de abelhas nativas sem ferrão.
Conhecer a legislação é importante, mas não suficiente. O verdadeiro diferencial está na capacidade de identificar corretamente as espécies presentes na área, compreender seus hábitos de nidificação e reconhecer os sinais que indicam a presença de uma colônia.
A conservação das abelhas nativas começa muito antes da retirada do ninho. Ela começa no momento em que a equipe entra em campo e consegue enxergar aquilo que profissionais sem treinamento dificilmente perceberiam.
Fonte: Resolução CONAMA nº 512, de 7 de abril de 2026.