Alguns resgate são um verdadeiro desafio.
Ao receber uma demanda, a primeira ação a ser tomada é verificar todos os riscos e fazer a análise desses riscos, para que não haja problemas futuros. Outro ponto importante a ser feito, é sempre, sempre, reportar sua análise para seus superiores, pois sempre haverá alguém a quem você precise recorrer futuramente, em caso de problemas.
Lembre-se sempre de fazer a sua análise por escrito e enviar ela a seus coordenadores, afinal, registro é registro.
Pois bem, assim eu fiz. Segui todas as etapas do protocolo de resgate e fui verificar a colméia que estava instalada no topo de um poste de ferro, em uma mina abandonada.
No local iriam escavar uma das bases de uma torre que precisava ser instalada. A Mina era a de Gongo Soco. Risco 4 de rompimento e o local já desabitado, estava repleto de colméias em processo de enxameação. Isso ocorre quando as abelhas evadem de um local para outro, em busca de um construir um ninho mais seguro para viver.
Há 2 meses do meu acionamento, um casal de trilheiros havia morrido por ataque de um enxame desses. Além disso, a equipe de topografia também havia sido emboscada e o auxiliar foi parar no hospital com tantas ferroadas que levou, ou seja, eu estava lidando com um exame bastante agressivo. Poderia ser o mesmo? sim, ou não, mas o que importava era que ele precisava sair dali.
Antes de me acionarem, a equipe de segurança da mineradora acionou o corpo de bombeiros, que na tentativa de expulsar (ou matar) a colméia, colocou espuma expandida dentro do poste. Resolveu? claro que não, elas até gostaram porque eles fizeram um suporte para os favos. O que eu poderia fazer então? Seguir o protocolo, não por acaso, criado por mim mesma.
Pois bem, subi até o topo do poste para verificar a entrada do ninho. Claro que usei cinto de segurança e claro, eu tinha treinamento em altura para realizar a atividade, Verificar o acesso a entrada do ninho é fundamental para o sucesso de qualquer resgate ou afugentamento.
Ocorre que eu não tive acesso a entrada do ninho. Pelo único local que eu podia chegar, não chegava nem perto da entrada. A outra possibilidade seria construir um andaime para que eu acessasse a entrada da colméia de frente. Possibilidade de isso acontecer: zero, informada pelas empresas responsáveis.
Ok, vamos pras outras possibilidades mais viáveis. Iríamos resgatar? não, ação a ser tomada? Afugentar a coméia.
Técnicas que eu usei: fumaça. Fumaça é um sinal de alarme para a colmeia, a mesma se sente ameaçada que seu ninho esteja em perido e elas abandonam o local e procuram outro. Deu certo? não.
Segunda tentativa: isca para captura. Preparei a isca, coloquei o feromônio e deixei o mais próximo possível que eu consegui do local. Voltei no dia seguinte, e no dia seguinte após, e no 3º dia depois. Deu certo? Também não.
Alternativa C: água. A água, tal qual a fumaça, emite um alerta para a rainha. Seu ninho está em risco de alagamento, hora de evacuar, mas como conseguir água naquele local?
O coordenador da mineradora, prontamente me arrumou um caminhão pipa. E lá fomos nós jogar água nas benditas. Litros e litros de água. Deu certo? não, elas continuavam firmes e fortes lá.
E sabe o resultado? O pior possível!
Fizemos essa atividade no periodo da manhã. Fomos para o almoço e durante esse período vimos uma grande fumaça vindo do local. O que poderia ter ocorrido? Saímos do refeitório e fomos direto para lá. O local estava em chamas, o corpo de bombeiros já estava no local, TODOS os coordenadores da mineradora, e claro, eles procuravam por um responsável. O fogo já havia sido contido, mas queimou cerca de 2km da mata do local.
Mas como o fogo ocorreu depois de jogarmos água? Por incrível que pareça, ficaram achando que o motivo do fogo foram faíscas da fumaça que eu havia feito, 4 dias atrás. Sério? Tem coisas nesses coordenadores que me irritava bastante. O que ninguém entendeu ou quis aceitar, foi que a água, causou o fogo.
Bom, vamos lá que eu explico: Eu, com meu curso de perícia em cenas de crime causada por fogo (sim eu tenho esse curso), fui lá analisar a cena (me senti uma verdadeira CSI hehehe), e logo vi o ponto de ignição e o local que o fogo iniciou.
A água atingiu uma fiação descoberta (que deveria estar desativada, mas como vocês podem perceber, não estava) e causou um curto circuito, gerando o fogo.
Sim, deu merda, mas sabe o que ocorreu de ruim comigo? Nada, porque toda a atividade que eu fiz, foi reportada anteriormente para meus superiores, e embora eu fosse a única especialista da atividade da equipe, e somente eu sabia o que fazer, eu já estava resguardada com minhas ações. E um detalhe no relatório que eu enviei com antecedência, me livrou da culpa, lá dizia: o responsável pela área informou que o local estava “desativado”. Se estava desativado, não haveria ter rede elétrica ligada.
Pois é, meu anjo da guarda não pode dormir no ponto! Olha o risco que eu corri, em cida da estrutura toda de ferro, jogando água e ainda com energia elétrica correndo por todos os locais.
Dado o incidente, ocorreu todo o protocolo de segurança da mineradora. Protocolo padrão, que sempre precisamos fazer em caso de incidentes como este, que no caso ocorreu apenas (graças a Deus) com perda ambiental, devido a área que foi queimada.
E a lição aprendida? adicionar a análise de risco: verificação da fiação elétrica, e se não houver possibilidade dela ser desligada, não faça a atividade.
Bom, mas e as abelhas? Vocês devem está pensando… com toda essa fumaça e fogo (e sim, o fogo subiu até a entrada do poste), elas devem ter saído.
E não meus amigos, a bicha continuou lá, firme e forte. Essa rainha me venceu.
Ela foi mais forte que a fumaça, que o cheiro agradavel do feromônio, que 10 mil litros de água na entrada do seu ninho e mais forte que 2 horas de fogo e fumaça. Essa foi a rainha mais forte que eu já enfrentei. Ela mereceu o direito de ficar la. E deve estar lá até hoje.
Por fim, a atividade que antes “não podia ser mudada de local, em hipótese nenhuma”, porque sim, eu cheguei a propor essa condição, foi mudada de lugar e vencida por uma colméia em processo de enxameação. Os engenheiros tiveram que refazer o projeto e instalar a base da torre em outro local.
Aviso: não briguem com as abelhas, quando elas querem, elas resistem.
Abaixo algumas fotos do local e da atividade.






















